Entrevista com a neurologista Maria Cecília Lopes, do Instituto do Sono
Cerca de 80% dos pacientes diagnosticados com câncer queixam-se de problemas com sono. Logo após o diagnóstico, esses problemas são principalmente a dificuldade de iniciar o sono, o que em geral é resultado da ansiedade provocada pelo próprio diagnóstico. Com o tempo, muitos podem continuar tendo sono insatisfatório, passando a registrar interrupções durante a noite, em função de incômodos causados pela doença e por seu tratamento, explica a neurologista Maria Cecília Lopes, pesquisadora da disciplina de Medicina e Biologia do Sono, do Instituto do Sono, órgão ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Mas há formas de tratar e reduzir esses inconvenientes, revela a especialista.
O tratamento do sono engloba orientações comportamentais, farmacológicas e acompanhamento psicoterápico, consistindo num conjunto de técnicas e procedimentos aplicados por uma equipe multidisciplinar e pelo próprio paciente com o objetivo de diagnosticar e tratar problemas relacionados ao sono. Após o acompanhamento de uma noite de sono do paciente, com exames e observações, é possível adotar uma série de medidas para chegar a um dormir tranqüilo.
Segundo Maria Cecília, é fundamental que a pessoa pratique uma boa higiene do sono, que consiste de alguns passos, como praticar atividades físicas, jantar moderadamente, dormir em horário regular. Ela aconselha também evitar leituras excitantes e televisão no quarto. “A cama deve ser utilizada apenas para namorar e dormir”, resume a neurologista. Por isso, conversas muito estimulantes devem ser deixadas para o dia seguinte, o mesmo acontecendo com problemas que só podem ser resolvidos durante o dia.
“É melhor fazer uma lista dos problemas a serem enfrentados no outro dia cerca de três horas antes de dormir e não abrir mais essas anotações nesse dia”, aconselha a médica. Se, apesar desses cuidados, a pessoa demorar a pegar no sono, não deve permanecer deitada mais do que 20 ou 30 minutos. O melhor é levantar-se e fazer alguma tarefa bastante monótona, para que o sono venha mais facilmente.
Segundo a especialista, a duração do sono varia de pessoa para pessoa e o que se mantém é que cada indivíduo tem um ciclo próprio de sono e vigília. No paciente com câncer, esse ciclo pode ficar desordenado por causa de fadiga e depressão. O resultado é um sono noturno não reparador e sonolência durante o dia. Quando ocorre em função dos tratamentos quimioterápico e radioterápico, a mudança no padrão de sono não persiste após esse período, informa Maria Cecília, acrescentando que procurar readquirir o padrão costumeiro pode ajudar na evolução do tratamento e na melhora da resposta imunológica. O exame polissonográfico - estudo objetivo do sono - pode auxiliar no diagnóstico e orientar o tratamento.
Ela enfatiza que o paciente deve procurar atendimento especializado pela medicina do sono para buscar dormir melhor e explica que o tratamento é definido caso a caso e que associa a terapia cognitivo-comportamental - que engloba uma boa higiene do sono e mudança na percepção do sono de cada paciente - ao uso de hipnóticos, desde os fitoterápicos até os fármacos industrializados.
Publicado em 23/08/2007