Entrevista com a terapeuta Edna Bertini, da PUC-SP
Entre as técnicas utilizadas pela medicina comportamental – conjunto de intervenções que visam a melhorar a qualidade de vida do paciente –, uma que merece destaque é a terapia cognitivo-comportamental. O objetivo dessa técnica é produzir mudanças de pensamento no sistema de crenças e de significados do indivíduo, explica Edna Bertini, terapeuta e professora de Bases Biológicas do Comportamento na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.
“O modelo cognitivo comportamental parte do princípio de que as emoções são decorrentes de padrões de pensamentos que são pautados em crenças, e estas por sua vez direcionam a maneira pela qual as pessoas interpretam os fatos e conseqüentemente determinam o comportamento. Para a terapia cognitivo-comportamental, ou simplesmente TCC, o que importa não é o fato, mas como o fato é interpretado pelo indivíduo”, explica a profissional.
Nesse tipo de abordagem o terapeuta trabalha dentro de um programa de psicoeducação. A intenção é auxiliar o paciente na identificação dos pensamentos automáticos e das crenças disfuncionais associadas a eles e propor técnicas de restruturação cognitiva, objetivando a mudança dos pensamentos automáticos. Também se busca levantar hipóteses e tentar identificar a crença central preponderante, para tentar identificar e substituir as crenças disfuncionais.
Uma técnica utilizada nesse tipo de terapia é a imaginação dirigida, em que o paciente é levado a se colocar na situação que o incomoda ou aflige e a imaginar-se saindo dela. Edna relata um estudo realizado com crianças com câncer: o terapeuta explicou que o câncer era como bichinhos que comiam as células boas do corpo da criança, mas que ela tinha também dentro de si pequenos soldados que podiam comer esses bichinhos. As crianças submetidas à terapia com essa técnica conseguiram apresentar aumento da resposta imunológica de seu organismo.
A terapeuta explica que o resultado sobre a mudança desejada na resposta emocional do paciente não é imediata e necessita da predisposição para mudar, mas que a médio prazo são grandes os ganhos em redução de ansiedade e estresse e melhora em estados depressivos, co-morbidades que muitas vezes acometem o paciente com câncer.
No caso de pacientes com doenças graves ou crônicas, Edna acredita que a TCC permite descobrir alternativas que levem a maior qualidade de vida, explorando aspectos positivos da personalidade e aptidões e prazeres em áreas até então ignoradas ou esquecidas pelo paciente.
“Aumentando o leque de perspectivas em relação à vida, amplia-se também a capacidade de enfrentamento da doença”, resume a terapeuta.
A terapia cognitivo-comportamental caracteriza-se pelo seu caráter breve e focal. Sua função é ensinar a pessoa a detectar e a reduzir seus sintomas, treinando-a a desenvolver habilidades para que em curto e médio prazo possa gerenciar sua vida sem a presença do terapeuta.
Publicado em 12/07/2007