Entrevista com a psicóloga Fernanda Rizzo di Lione, do Hospital Sírio Libanês
O comprometimento da sensibilidade na mama mastectomizada pode trazer conseqüências também para o relacionamento sexual do casal, mas essa é uma situação capaz de ser revertida, com o tempo, de forma diferenciada para cada paciente. A informação é da psicóloga Fernanda Rizzo di Lione, coordenadora da Unidade de Psicologia Hospitalar do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo.
Uma das principais zonas erógenas do corpo feminino e que exerce forte atração sobre o sexo masculino, o seio deixa de ser, na mulher mastectomizada em geral, fonte de prazer erótico. “Tudo é muito relativo”, ressalva Fernanda, “e depende da história prévia da mulher e seu parceiro e da importância que o seio tinha no relacionamento sexual dos dois.”
Em sua experiência clínica, Fernanda já se deparou com pacientes para as quais não existia a possibilidade de relação sexual sem a carícia no seio, enquanto para outras essa região não representava fonte relevante de excitação. Entre os parceiros, as reações tanto podem ser de reclamar da falta de disposição da mulher para receber carícias no peito como de não atender sua solicitação de fazê-las, com medo de machuca-la.
“Na primeira fase após a cirurgia, a mulher não quer o toque, não quer se expor, e ela precisa de um tempo para elaborar as mudanças em seu corpo”, explica a psicóloga. O tempo que ela vai precisar para isso é muito particular e está ligado aos recursos internos de que dispõe e de como lidou com situações de dificuldade anteriormente.
Quando passa a aceitar sua nova condição, a mulher percebe que o relacionamento sexual não depende só do componente físico. Se ela tinha uma vida sexual positiva, volta a ter libido e o leque de possibilidades em relação às zonas erógenas é grande, avalia Fernanda: “Ela pode perceber que mudaram as regiões de estimulação em seu corpo e pode até mesmo voltar a sentir excitação na mama, por razões psicológicas e emocionais, uma vez que o aspecto orgânico propriamente não existe mais.”
Como a recuperação física também é um processo individual e por isso tem duração variável, Fernanda lembra que as carícias no peito podem ser retomadas dependendo da sensibilidade da mulher. Manipular a região, com força ou não, pode provocar dor em lugar de prazer antes da completa recuperação da paciente. A reconstrução da mama, que em grande número de casos é feita no momento da retirada do tumor, e a posterior reconstrução do mamilo, podem ajudar a que o prazer do relacionamento retorne com mais facilidade.
“Como o mamilo é reconstruído depois de algum tempo da cirurgia, algumas pacientes aproveitam para pedir ao médico que ele deixe a mama sadia com a mesma aparência da que foi operada e que ficou mais durinha por causa do silicone”, diz a psicóloga, acrescentando que a aparência rejuvenescida do seio é positiva para a auto-estima e contribui para a retomada da vida sexual.
Publicado em 13/09/2007