Entrevista com a psico-oncologista Maria Lúcia Ferreira

Dois tipos de sonhos aparecem com freqüência no paciente com câncer, em diversas etapas do tratamento: os que estão ligados à sexualidade e aqueles em que a pessoa se vê inteira e sã. Segundo a psico-oncologista Maria Lúcia Ferreira, o sonho, sempre repleto de símbolos, dá pistas sobre o estado interior do paciente e essas pistas podem ser trabalhadas pelo terapeuta das mais diversas formas, seja verbalmente, seja por meio de sua representação em trabalhos com argila ou em desenhos.

Maria Lúcia - que realizou pesquisa com pacientes terminais em diversos centros hospitalares europeus e norte-americanos - explica que os símbolos são variados e sua interpretação depende de uma série de fatores individuais e que há, também, símbolos que fazem parte do inconsciente coletivo, ou seja, que aparecem nos sonhos de pessoas das mais diferentes culturas. Entre aqueles ligados à sexualidade, alguns exemplos são os de sonhos com cavalos – um dos animais de imagem mais associada à sexualidade – ou de objetos longos e rígidos como o revólver, que representa o pênis, ou de buracos ou receptáculos como representação da vagina ou, ainda, de um trem entrando num túnel ou uma chave sendo inserida numa fechadura, como representação do ato sexual.

Os sonhos ligados à sexualidade aparecem com freqüência na paciente mastectomizada que ainda não fez a reconstrução de mama. Quando essa paciente está com sua auto-estima baixa ou quando evita o contato com o parceiro, o tema se torna recorrente nos sonhos.

“O câncer de mama é realmente um grande problema para a mulher, que não aceita estar sem seio e que teme a rejeição quando a reconstrução da mama não ficou boa”, explica Maria Lúcia, acrescentando que o retraimento da mulher e seu desejo de ter um homem aparecem nos sonhos.

Para ela, a reconstrução da mama é uma fase essencial na recuperação da paciente e na reconquista do equilíbrio e, enquanto ela não acontece, o sonho com o corpo perfeito também é recorrente.  Ultrapassada essa fase, a tendência é que a paciente volte a ter os sonhos normais de qualquer indivíduo.

Igualmente para o paciente com câncer colorretal o teor do sonho sofre modificações, relata a terapeuta, e podem ficar mais voltados a questões de sexualidade. No caso da paciente mulher, se ela costuma ter relação anal, ela pode sentir mal-estar ou vergonha e evitar essa prática. Se estiver fazendo uso da bolsa de colostomia, pacientes de ambos os sexos podem preocupar-se com a existência de cheiros. Para esses pacientes, é comum, por exemplo, o sonho com banheiros.

“Em ambos os casos, a sexualidade é afetada, porque tanto o seio como a área genital e sua proximidade com o ânus têm apelo sexual muito grande”, informa Maria Lúcia.

A terapeuta lembra, porém, que o sexo é a energia mais forte no ser humano mas que está fundamentalmente ligado à cabeça. Voltar a ter uma vida sexual ativa e normal, portanto, é possível e depende em grande parte da disposição do paciente em resolver o problema, em geral buscando a ajuda especializada, afirma Maria Lúcia.

A profissional entende que o apoio psicoterápico é indispensável para os pacientes superarem suas dificuldades e acredita ser muito difícil vencê-las sem ajuda. Tratamentos realizados antes e após as cirurgias podem afetar a fisiologia do paciente. “No caso das mulheres, a libido diminui bastante porque faltam hormônios, a vagina fica seca e com um trabalho corporal orientado pelo profissional é mais fácil que ela volte a ter lubrificação. Da mesma forma, homens que estiveram desacreditados de retomar uma vida sexual ativa contrariaram as expectativas com o suporte adequado”, conclui a psicóloga.

Publicado em 27/09/2007

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