Entrevista com a psico-oncologista Frida Rúmen, da SBPO

O impacto provocado pelo câncer na sexualidade do paciente acontece de maneira igual ao que é sentido em todas as esferas que compõem a sua vida: na emoção, no desempenho profissional, no relacionamento com os outros. A pessoa se vê desestruturada, sem perspectivas. Esse impacto começa no momento do diagnóstico e vai se modificando na medida em que o tratamento avança, observa a psico-oncologista Frida Abezgauz Rúmen, representante da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia no Rio de Janeiro.

"De maneira geral, a sexualidade é afetada pela visão que a pessoa passa a ter de si mesma", afirma a especialista.

Ela reconhece que em determinados momentos do tratamento, como durante a quimioterapia, a libido é afetada em função das drogas utilizadas, mas nesse caso o efeito adverso é revertido com a finalização do tratamento.

A persistência da redução ou da falta de interesse sexual após o uso dos quimioterápicos pode estar relacionada ao estigma de mortalidade que o câncer carrega e que interfere na vida do paciente como um todo e se reflete em todas as manifestações que dizem respeito a ela.

"Nesses momentos, a sexualidade deve ser tratada e as técnicas terapêuticas disponíveis, embora sejam variadas, voltam-se necessariamente para o resgate da auto-estima e para o reinvestimento na vida", explica Frida.

O resgate da auto-estima requer, por exemplo, mudanças na perspectiva de vida e na elaboração de novas estratégias existenciais a partir da doença. Na medida em que retoma o investimento em sua própria vida, revendo objetivos e posicionamentos, a pessoa pode perceber que o relacionamento com seu par é um motor que pode contribuir para sua recuperação.

"O prazer do contato com o outro pode levar o paciente a reconquistar uma visão construtiva de si mesmo e perceber que as modificações que sofreu não são necessariamente o fim da linha, mas, muitas vezes, constituem uma mudança para melhor", avalia a psico-oncologista.

Frida, que também desenvolve um trabalho de atendimento a crianças e adolescentes na Casa Ronald McDonald, justifica: "É comum que o adulto - que normalmente tem uma história de relacionamentos prévia ao surgimento da doença - já enfrentasse dificuldades na sua vida sexual e essas dificuldades se tornam mais aparentes ou são aumentadas a partir do diagnóstico do câncer".





Publicado em 04/04/2008

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