Entrevista com a ginecologista Lenira Mauad(*), do Hospital Amaral Carvalho
Entre os efeitos colaterais provocados pela quimioterapia, um pode afetar diretamente a vida sexual e reprodutiva da mulher. Em algumas pacientes, determinados tipos de quimioterápicos podem levar à menopausa até dez anos antes da data esperada, mas a ocorrência é mais comum em mulheres que já têm naturalmente desgaste da função ovariana em função da idade. A informação é da ginecologista Lenira Mauad, do Hospital Amaral Carvalho, especializado no atendimento a pacientes com câncer em Jaú, interior de São Paulo.
O processo, entretanto, nem sempre é irreversível. “Nas mulheres mais jovens, a chance de recuperação da função hormonal é maior por haver mais reserva ovariana, mas isso também depende do tipo de câncer e do esquema quimioterápico empregado no tratamento,” informa Lenira. Ela acrescenta que a American Society of Clinical Oncology publicou em 2006 uma tabela de risco para falência hormonal baseada em dados de literatura e graduou os riscos de cada tratamento, numa escala que vai de alto, mais de 80% de risco, a baixo, menos de 20%, e também de risco desconhecido, para cada esquema de tratamento utilizado.
Segundo a especialista, a aceleração da menopausa pode ocorrer porque os quimioterápicos agem nos folículos ovarianos levando à sua destruição e, conseqüentemente, ao comprometimento total ou parcial dessas células que são as responsáveis pela produção hormonal e pela liberação dos óvulos. Como elas não são substituídas, as mulheres ficam com sua função hormonal e reprodutiva comprometida.
Em relação à reposição hormonal, Lenira lembra que ela é contra-indicada em tumores hormônio-dependentes, como os de mama e endométrio, e alguns tipos de câncer de ovário. Geralmente, quando indicado , o tratamento hormonal deve ser iniciado após pelo menos um ano do término da terapia e a mulher deve ser avaliada periodicamente para controle de possíveis efeitos adversos.
Lenira tem estudado os efeitos da alteração hormonal em pacientes com câncer e criou, há cerca de três anos, um ambulatório para acompanhamento e atendimento dessas pacientes. A médica está concentrada principalmente em casos de mulheres submetidas a transplante de medula óssea para buscar meios de propiciar melhor qualidade de vida pós-transplante.
(*) CRM-SP 51869
Publicado em 17/09/2008