Entrevista com a ginecologista Ana Carolina Rosa e Silva, do HC-FMRP

Em futuro talvez não muito distante, mulheres submetidas a tratamento quimioterápico – que leva à falência do tecido ovariano em praticamente 100% dos casos – poderão ter filhos algum tempo após sua recuperação, acredita-se que de três a cinco anos após o final do tratamento. Estudos nesse sentido estão sendo feitos em diversos centros médicos no mundo e, no Brasil, foram iniciados pela ginecologista Ana Carolina Japur de Rosa e Silva, na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo.

Depois de um estágio durante um ano na Espanha, onde acompanhou as pesquisas em andamento nesse país, Ana Carolina iniciou seu estudo tendo como primeiro objetivo verificar se a tecnologia disponível no País está apta para responder aos procedimentos requeridos. A meta é conseguir manter as funções do tecido ovariano congelado, retirado das pacientes antes da quimioterapia e reimplantado no momento em que ela estiver em condições de responder por uma gestação saudável.

A médica começou seu trabalho retirando parte dos ovários de pacientes do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, que pretendiam realizar o processo de laqueadura e consentiram no procedimento. A retirada aconteceu no mesmo momento da cirurgia. Se obtiver sucesso nessa primeira etapa, conseguindo manter as funções desse tecido, Ana Carolina pretende iniciar a extração do tecido ovariano de pacientes que irão se submeter a tratamento quimioterápico.

A ginecologista explica que a opção por congelar tecido ovariano em lugar de óvulos - que poderiam ser fecundados in vitro, sendo os embriões posteriormente transferidos para o útero - deve-se ao fato de que esse caminho exigiria aguardar o momento em que os óvulos estivessem maduros e que nem sempre é possível para a paciente adiar o começo do tratamento quimioterápico. Outro caminho, igualmente desaconselhado para esse tipo de paciente, seria estimular o amadurecimento dos óvulos, processo que também demanda algum tempo para chegar a bom termo.

Ana Carolina explica que, se for bem-sucedido, o procedimento em estudo será indicado preferencialmente a mulheres com menos de 35 anos, que têm maior possibilidade de desenvolver uma gestação. A médica acredita que a perspectiva de voltar a ter filhos pode dar novo alento a um grande número de pacientes – algumas em idade bastante precoce quando submetidas à quimioterapia – e poderá, até mesmo, influenciar positivamente na estabilidade emocional e psicológica da mulher.
“A infertilidade provocada pelo tratamento interfere na sua auto-estima e na sua sexualidade e pode levar a mulher a se sentir inferiorizada e a possibilidade de ser mãe após o tratamento poderá lhe dar outro alento no que concerne ao relacionamento com seu parceiro”, acredita a médica.

Publicado em 05/07/2007

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