Entrevista com a psicóloga Maria Lúcia Ferreira, do Projeto Ciranda Viva

Doenças crônicas ou de difícil tratamento - como é o caso do mal de Parkinson, artrite reumatóide, diabetes ou mesmo o câncer - comumente levam pacientes, familiares e profissionais de saúde a criar associações que reúnem especialistas ou pacientes para facilitar a disseminação de informações sobre as doenças propriamente ditas, tratamentos e, geralmente, para dar suporte e apoio emocional que facilitem a superação de dificuldades. Muitas dessas associações são integradas por voluntários que dedicam parte de seu tempo a contribuir nas ações necessárias para levar maior conforto a quem está fragilizado.

O trabalho voluntário, porém, requer certa preparação, sob risco de tornar-se ineficaz e, o que é o pior, prejudicial a quem se quer ajudar, alerta a psicóloga Maria Lúcia Ferreira, coordenadora do Projeto Ciranda Viva, que capacita voluntários interessados em dar apoio a pacientes com câncer, entre as diversas atividades que desenvolve gratuitamente.

Com a experiência de quem vem treinando há mais de 20 anos voluntários para atuação em diversas frentes, Maria Lúcia explica que o voluntário experimenta com igual força sentimentos de humanidade, solidariedade e medo. Por isso, ele precisa adquirir técnicas adequadas de atuação, caso contrário "quem pretende ajudar não consegue fazê-lo e quem precisa de ajuda não consegue recebê-la", explica a psicóloga.

Maria Lúcia estruturou um curso de preparação de voluntários que visa basicamente a atender três objetivos: motivar os voluntários profundamente, trabalhar seus sentimentos confusos e contraditórios em relação ao câncer e oferecer ferramentas para a prática do voluntariado, tornando-o apto a assumir a responsabilidade de sua opção.

Intitulado de role playing (jogo de papéis), o curso consiste da dramatização de papéis e consta de doze aulas de duas horas e meia de duração, precedidas por entrevista individual feita por um psicólogo, na qual se busca saber os motivos que levaram a pessoa a ser voluntária.

A primeira aula é dedicada à vivência de um role playing, quando o grupo experimenta o tipo de treinamento por que vai passar. Na segunda, o trabalho é de sensibilização do eu, em que é estimulada a lembrança da vivência individual, por meio de técnicas específicas. Nas sessões seguintes, o participante trabalha a vivência em grupo, passa por microlaboratórios em que assume novos papéis, analisa o comportamento do grupo e o seu próprio dentro dele, trabalha a comunicação e a carga emocional que ela carrega e faz trabalhos corporais para liberar as tensões.

Nas quatro aulas finais, o candidato a voluntário é levado a questionar e entender suas emoções em relação ao câncer e em relação à morte. Uma aula é especialmente dedicada ao trabalho profundo com as motivações que o levaram a escolher esse tipo de atuação voluntária.

Maria Lúcia observa que o trabalho voluntário é extremamente importante no tratamento do paciente com câncer. "A demanda de pacientes com câncer excede em número muito alto o de profissionais especializados e só se pode atender a essa demanda satisfatoriamente se o voluntário fizer seu trabalho com toda a responsabilidade e o profissionalismo inerentes a esse novo papel", conclui a psicóloga.

Publicado em 28/04/2008


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