Entrevista com a pesquisadora Wilma Madeira da Silva, da FSP-USP
Alguns pacientes não gostam de buscar informações sobre o câncer, por considerar que essa busca não os auxiliará no tratamento desta doença. Em geral, estes são pacientes que acreditam que o seu destino já está traçado e por isso eles não teriam controle sobre a sua cura ou evolução da doença.
Diversos estudos e vários profissionais de saúde vêm defendendo, porém, que a participação ativa do paciente pode fazer toda a diferença na busca, com menor dificuldade, de sua recuperação e na transposição dos obstáculos de um tratamento. Essa participação abre caminhos que podem levá-lo à cura, mas depende, em primeira instância, do conhecimento que ele adquira sobre sua condição e sobre as alternativas disponíveis para lidar com sua condição.
Recente pesquisa realizada na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) constatou que a procura por informações transforma a participação do paciente durante sua consulta médica: ele passa a ter maior interação com seu médico e, em alguns casos, se sente mais apto a discutir seu diagnóstico e formas de tratamento.
A pesquisadora Wilma Madeira, responsável pelo estudo, avaliou o comportamento de 116 participantes da pesquisa em relação à procura de informações sobre saúde na internet. Ela tinha como hipótese para o trabalho que a relação médico-paciente, para ser fortalecida, necessita do fortalecimento do próprio paciente, que precisa passar de submisso para parceiro na troca de informação e na tomada de decisão quanto aos caminhos do diagnóstico e do tratamento proposto.
Ela verificou que o grupo pesquisado acessa informações sobre saúde tendo, entre suas motivações, a necessidade de complementar ou esclarecer dúvidas existentes após a realização de uma consulta médica. Os conhecimentos adquiridos na internet são considerados úteis pela maioria dos indivíduos. As reações são diversas. Alguns se sentem mais seguros e passam a questionar mais sobre os rumos do tratamento e detalhamento do seu caso. Outros começam a interagir na definição de caminhos e estratégias para o enfrentamento da doença.
No universo estudado por Wilma, 51,7% dos participantes eram mulheres e 51,7% estavam na faixa etária dos 39 a 58 anos; 41,4% têm curso superior e 69,8% vivem na região sudeste do País. A maioria (53,9%) acessa a internet várias vezes ao dia. A busca de informações sobre saúde e doenças é apontada por 83,6% dos entrevistados; 85,4% afirmam que já acessaram essas informações após uma consulta médica e 67,19% consideram que essas informações podem dar subsídios à decisão sobre os procedimentos a serem realizados.
Para 53,85% dos pesquisados, as informações coletadas na internet serviram para permitir maior interação nas consultas, possibilitando-lhes fazer perguntas pertinentes e compartilhar informações com o médico. Para 15,39% dos consultados, essa interação foi ainda mais longe, ajudando-os a decidir sobre procedimentos e questionando diagnósticos.
"Alguns especialistas da bioética afirmam que a autonomia que deve ser dada ao paciente inclui a possibilidade de que ele não participe do processo de diagnóstico e tratamento se assim quiser, mas contribuir, participar, ter melhor consciência de sua própria condição são fatores que auxiliam na melhora ou, pelo menos, na redução das dificuldades impostas pelo tratamento", enfatiza a pesquisadora.
Publicado em 06/12/2007