Entrevista com o psiquiatra Carlos Laganá, do HC
Quem já não assistiu a algum espetáculo circense em que, além de fazer desaparecer coelhos na cartola o mágico também encanta a platéia fazendo flutuar uma linda mocinha hipnotizada? A levitação é um truque. Mas a hipnose, não. Longe de ser uma forma de diversão, ela é uma técnica utilizada com seriedade em renomadas instituições de saúde para reduzir ansiedade, lidar com estados depressivos e, ainda, reduzir a sensação de dor em pacientes com doenças graves.
No Grupo de Dor do Hospital das Clínicas de São Paulo, por exemplo, a hipnoterapia, como é chamada a terapia feita com hipnose, é uma ferramenta auxiliar utilizada nos diversos estágios do tratamento contra o câncer, revela o psiquiatra Carlos Laganá. “A hipnose pode ajudar na cirurgia, na cicatrização, na elevação da imunidade do paciente”, explica o profissional.
É comum utilizar a hipnose para modificar a percepção da dor pelo paciente. A intenção não é eliminar a sensação - porque a dor é uma defesa do organismo que alerta sobre determinado problema -, mas modificar suas características. Segundo Laganá, com a hipnose a pessoa pode ter sensação de formigamento ou de peso, por exemplo, em vez de dor.
A sessão de hipnose dura cerca de 50 minutos, dependendo de cada caso e do conflito a ser trabalhado, e pode ser realizada uma ou duas vezes por semana. Em pacientes com câncer inoperável ou em estágio avançado, a medicação para alívio da dor continua sendo utilizada, mas muitas vezes a dosagem pode ser diminuída, explica o médico.
Em geral, qualquer pessoa pode ser hipnotizada, mas o procedimento não é recomendado para doentes psiquiátricos. Quando a pessoa é muito sensível, duas sessões iniciais podem ser suficientes para o condicionamento, enquanto pessoas mais resistentes podem precisar de até dez sessões.
Na hipnoterapia, o profissional faz uma série de sugestões que serão utilizadas pelo paciente quando se deparar com o problema que está sendo tratado. A técnica leva a um estado alterado de consciência – quando hipnotizada, a pessoa percebe apenas o que lhe foi sugerido. Ela sofre mudanças também do ponto de vista fisiológico: mudam sua pressão arterial e batimento cardíaco e ela pode chegar a um estado mais profundo que o da meditação.
O médico informa ainda que a hipnoterapia é uma técnica que não produz efeitos adversos, desde que aplicada por profissional especializado. Deixar-se hipnotizar pelos mágicos circenses, portanto, está fora de cogitação quando o assunto é saúde.
Publicado em 05/07/2007