Em alguns momentos do tratamento contra o câncer é possível que o paciente venha a sentir dor. Até há alguns anos, lidar com a dor era um problema: havia muito preconceito, pois os médicos temiam que os pacientes pudessem ficar dependentes de algumas drogas utilizadas para o combate aos sintomas de dor, explica o anestesiologista Irimar de Paula Posso, supervisor da Equipe de Controle de Dor da Divisão de Anestesia do Instituto Central do Hospital das Clínicas de São Paulo e professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
"Felizmente o preconceito tem diminuído gradativamente e hoje contamos com o respaldo das diretrizes estabelecidas pela Organização Mundial de Saúde, que criou uma 'escada' de cinco degraus para a terapia de combate à dor", comemora Posso.
Em algum momento de seu tratamento a maioria dos pacientes com câncer sente dor, explica o médico. Alguns sentem dor aguda, outros têm dor crônica e sua intensidade também pode variar. Em geral, a dor começa discretamente e vai aumentando conforme progride o tumor, o que acontece por compressão da estrutura nervosa no local do câncer, por expansão do tumor ou por metástase. Há casos em que o paciente sente dor apenas após a cirurgia, por causa do corte cirúrgico.
O tratamento contra a dor pode ser aplicado antes, durante e depois da cirurgia, afirma Posso. Os 'degraus' de tratamento começam com o uso de analgésicos comuns, aqueles utilizados contra dores de cabeça, por exemplo, que são potencializados com a conjugação de outras famílias de fármacos. No segundo 'degrau', associam-se alguns opióides de baixa potência, de preferência via oral. O terceiro passo é utilizar opióides mais potentes, como a morfina, em associação com os analgésicos. O quarto 'degrau' compreende bloqueios anestésicos por injeção, com associação ou não aos analgésicos. O último passo, menos usado devido ao alto custo dos equipamentos, consiste no implante de neuroestimuladores ou bombas de infusão na medula espinhal, para administração constante dos medicamentos.
Nenhum desses 'degraus' exige que o paciente permaneça internado, informa o anestesiologista. O uso de opióides, a partir da terceira fase, pode causar dependência física e psíquica, mas isso só ocorre quando há necessidade de grandes dosagens e por longo período de duração. Caso contrário, a retirada dos medicamentos após o controle da dor não leva a crises de abstinência, comuns em casos de dependência química, garante o especialista.
Publicado em 02/03/2007