Entrevista com o cirurgião dentista Marcelo Seneda, do Hospital Sírio Libanês

Preparar-se para um tratamento contra o câncer requer alguns cuidados prévios que ultrapassam aqueles voltados diretamente à região afetada pelo tumor. Isso acontece porque a quimioterapia pode ter, entre seus efeitos, a baixa da capacidade imunológica do organismo, tornando necessárias algumas medidas que previnam e reduzam a possibilidade de desenvolver infecções.

Uma das medidas aconselhadas é o tratamento dentário anterior à quimioterapia, explica o cirurgião dentista Marcelo Seneda, do Centro de Oncologia do Hospital Sírio Libanês, de São Paulo. “Antes de iniciar o tratamento e antes mesmo da cirurgia, é aconselhável fazer uma avaliação geral para verificar a condição da mucosa, a existência de tártaro, a presença de cáries ou se há mobilidade dos dentes, condições que podem agravar-se com a queda da imunidade”, explica Seneda.

O especialista verifica essas condições por meio do exame clínico e também pelo exame radiográfico, que possibilita visualizar se há perda óssea, causada por doença periodontal. Seneda também aconselha a realização do tratamento de canal nessa fase, quando for necessário. “Mesmo que não haja tempo, as primeiras etapas para abertura do dente e remoção do nervo devem ser realizadas antes da quimioterapia, ficando a finalização para após o tratamento ou entre os ciclos de uso das drogas quimioterápicas”, explica o dentista.

Seneda aproveita o momento do tratamento dentário prévio para dar algumas orientações ao paciente. Ele lembra que com o comprometimento do sistema imunológico e com a eventual alteração na quantidade de saliva, alguns fungos presentes normalmente na boca podem proliferar-se e causar irritações, como aftas e “sapinhos”. Para reduzir essa possibilidade, ele recomenda manter boa higiene bucal e dá explicações sobre produtos que devem ser utilizados para esse fim.

“O objetivo é reduzir a chance de agredir a região da boca”, explica Seneda. Assim, a recomendação é utilizar enxaguatórios que não têm álcool em sua composição e cremes dentais que não contenham lauril sulfato de sódio, que é um tipo de detergente. Quando necessário, ele indica ainda produtos que servem como substitutivo da saliva.

Em relação à escova dental, Seneda considera suficiente que se escolha a do tipo macio. “O que importa na escovação não é a força empregada, mas a repetição da escovação porque a limpeza é feita por remoção mecânica”, adverte o cirurgião dentista.

Nos casos em que o paciente está mais sujeito a sangramento, é possível substituir a escova comum por outras que têm ponta de espuma e, portanto, são mais macias. O fio dental deve continuar sendo utilizado, porém com cuidado para evitar sangramento, o mesmo ocorrendo com os jatos de água empregados na limpeza de dentes.

(*) CRO-SP 44679


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