Entrevista com a psicóloga Eva Strum
Fatores emocionais como a depressão e o estresse, desencadeados durante a internação hospitalar ou antes de cirurgias, são o foco da atenção de um grupo de voluntários que atuam na ONG Pensamento Positivo, criada há mais de uma década pela psicóloga Eva Strum. O grupo é integrado por cerca de 80 voluntários que dão atendimento em dez hospitais de São Paulo, todas as quintas-feiras.
Entre os pacientes a que se dedica, a Pensamento Positivo tem pessoas em tratamento contra o câncer, tanto nas fases pré e pós-cirúrgica como em procedimentos quimioterápico e radioterápico. A ONG trabalha com pacientes acima dos 18 anos e só não atende pessoas que apresentem doenças contagiosas.
A psicóloga conta que a idéia de desenvolver o trabalho surgiu por causa de seu pai. Internado por problemas de coração, ele estava deprimido quando ela decidiu levar um jogo para reanimá-lo: o Rummikub, que exige dos jogadores a elaboração de estratégias e a busca de soluções para vencer. Logo, seu pai se animou, passou a rir e a brincar e ela decidiu estender a proposta para outras pessoas.
O Rummikub foi idealizado no início dos anos 30 por Ephraim Hertzano, para jogar com sua família e amigos. As primeiras fichas foram talhadas em madeira por ele próprio e nos anos 50 o jogo começou a ser vendido de porta em porta e em pequenos estabelecimentos comerciais. Tornando-se cada vez mais aceito, o jogo conquistou celebridades de Hollywood, como Telly Savalas e Liz Taylor, e hoje possui 30 variações. Exigindo inteligência, habilidade, astúcia e um pouco de sorte, o desafio é o jogador tentar livrar-se de suas fichas antes dos demais concorrentes, criando trincas ou seqüências numéricas e atuando com suas próprias fichas e as já dispostas por seus adversários no tabuleiro.
Eva começou com um trabalho modesto, auxiliada por uma sobrinha. Hoje, a Pensamento Positivo está bem estruturada e tentando formar parceria com escolas de segundo e terceiro graus, para angariar mais voluntários e ampliar o número de hospitais atendidos. A entidade também diversificou e passou a oferecer, aos domingos, uma apresentação de coral que percorre todos os andares do hospital para que o paciente não tenha de se deslocar.
O sistema de trabalho da ONG prevê que o paciente seja visitado sempre por uma dupla de voluntários, que o convida a brincar. Um ensina as regras e o outro joga. As conversas nunca incluem temas sobre doença e giram apenas em torno de assuntos leves e agradáveis. A visita dura cerca de meia hora e cada grupo, com um coordenador, passa aproximadamente duas horas em cada hospital. O trabalho é feito durante todo o dia, inclusive à noite. Ao final de cada visita, os voluntários respondem a um questionário para avaliar o comportamento do paciente e, segundo a psicóloga, sempre é visível a mudança no estado de espírito do internado.
“Com o jogo a pessoa tira o pensamento da doença e o substitui por desafios, ficando com sua atenção presa à necessidade de apresentar soluções para os problemas e tendo de raciocinar”, diz a psicóloga. Para quem presta o serviço também há recompensa: embora sem remuneração, os integrantes do grupo acabam se enriquecendo no convívio com os pacientes, aprendendo em cada contato que mantêm com eles.
Publicado em 19/07/2007