Entrevista com a psicóloga Lucy Bonazzi, do Instituto da Mama do RS

Procurar atingir o equilíbrio ao atravessar momentos difíceis pode levar a situações equivocadas. É comum, nessas circunstâncias, esquecermos que durante toda a vida atravessamos igualmente momentos bons e ruins, sentimos tristeza e alegria, irritação e tranqüilidade em períodos que vão se alternando. Quando estamos com problemas e queremos superá-los, muitas vezes acreditamos que é preciso ficar tranqüilo o tempo todo, tentar evitar o estresse a todo o custo e qualquer desvio nessa rota faz acender o sinal vermelho.

Equilíbrio de verdade é conseguir conviver com momentos de esperança e desesperança, ensina a psicóloga Lucy Ghirardini Bonazzi, do Instituto da Mama do Rio Grande do Sul.

Acostumada a lidar com pacientes com câncer de mama, Lucy revela que é comum as mulheres quererem proteger sua família escondendo os momentos de tristeza que sentem, seja pelo diagnóstico ou mesmo durante a quimioterapia, que pode ser encarada como outra doença quando, dependendo da medicação utilizada, a paciente sofre muitos incômodos.

"A mulher chora escondido, sozinha, para que sua família não sofra", diz Lucy. Segundo ela, esse comportamento pode até ser resultado da atitude dos familiares que, pensando em ajudar, enfatizam a necessidade de que a paciente tenha pensamentos positivos, impedindo, assim, que ela lance mão de um mecanismo importante de descarga como é o choro.

Como forma de não exteriorizar seus sentimentos, outras mulheres passam pelo tratamento ocupando-se demasiadamente em alguma atividade que lhes desvia o pensamento e esconde as emoções que estão sentindo. Quem opta por esse caminho acaba geralmente manifestando suas sensações depois que o tratamento termina, como se fosse um efeito rebote.

O aconselhável, avalia Lucy, é que a paciente aceite como normal a oscilação dos sentimentos durante o tratamento e que deixe suas sensações fluírem, compartilhando-as com quem está próximo de sua convivência. Nem sempre é fácil para a família deixar que o parente vivencie momentos muito tristes, mas represar essas emoções em nome de um suposto equilíbrio pode desencadear quadro de depressão tardia mais grave. A depressão grave também pode afetar o tratamento, na opinião da psicóloga, uma vez que a depressão tende a influir na capacidade de defesa imunológica do organismo.

Além do suporte que a família pode dar, Lucy considera positivas outras formas de compartilhamento, como em grupos de ajuda ou mesmo na religião. "Religião significa religar, ou seja, a paciente pode estabelecer nova ligação com ela mesma ao encontrar forças no grupo religioso ao qual pertence", explica.

Publicado em 19/003/2008

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