
Entrevista com o psicólogo Ricardo Alves de Lima, da USP
Mais do que uma possibilidade de divertimento, o lazer deve ser considerado como fator de saúde.
Entretanto, quando está enfrentando alguma doença, a primeira coisa que a pessoa tende a cortar é
justamente o lazer, privando-se de uma importante válvula de escape e fonte de equilíbrio.
A explicação é do psicólogo clínico Ricardo Alves de Lima, professor universitário e doutorando em
Psicologia da Personalidade e do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de
São Paulo.
Segundo ele, a prática de um hobby ou de uma atividade de lazer provoca a liberação, em maior ou menor grau,
de endorfina, hormônio que está ligado à sensação de prazer e bem-estar. Quando a atividade requer movimentação
física, como uma corrida ou a prática de jogos de equipe, por exemplo, a liberação de endorfina é maior,
se comparada a uma atividade mental, como colecionar selos ou jogar xadrez. Mas a liberação sempre ocorrerá e essa
reação orgânica ajuda a pessoa a se desligar dos problemas e a ganhar nova força e motivação.
"É bom lembrar que não há atividade de lazer mais ou menos benéfica; o que importa é se a atividade escolhida
traz prazer e relaxamento à pessoa", lembra Lima.
Quando a pessoa está habituada a manter uma rotina de lazer, a impossibilidade eventual de dedicar alguns momentos
à sua prática pode ser sentida fisicamente. "Ela sente falta e pode até ter essa sensação fisicamente, principalmente
quando a ação escolhida é um esporte ou exercício físico", explica o especialista.
Para Lima, a prática de alguma modalidade de lazer é ainda mais importante para um paciente com câncer que está em tratamento.
"Nesse período, ele sente desconforto psicológico e físico e adicionalmente costuma estar afastado de sua ocupação profissional",
lembra o psicólogo.
Quando o paciente com câncer não consegue manter a atividade lúdica durante seu tratamento, porque ela exige uma capacidade física
que ele não está apto a oferecer naquele momento, é aconselhável que ele opte por outro tipo de lazer. A escolha do que fazer como
hobby nem sempre é fácil porque algumas pessoas não encontram ou não sabem do que gostam. "O terapeuta pode ajudar o paciente a
fazer essa descoberta, indicando atividades, acompanhando o paciente durante a prática dessa atividade e discutindo com ele as
sensações agradáveis ou não que essa atividade lhe provoca", afirma Lima.
Esse trabalho, chamado de acompanhamento terapêutico, consiste na discussão em consultório para escolha das atividades e acompanhamento
do psicólogo, psiquiatra ou enfermeiro especialmente treinado nesse tipo de terapia durante a prática da atividade escolhida.
Com ele, fica mais fácil para o paciente descobrir hobbies e atividades que lhe proporcionem prazer e o ajudem a reduzir o estresse
causado pelo tratamento.
Publicado em 04/04/2008