Entrevista com a psicóloga Cristiane Ferraz(*), do Hospital Albert Einstein
Além das medicações e procedimentos recomendados durante o tratamento contra o câncer, o paciente recebe também uma série de orientações para o seu dia-a-dia que podem implicar mudanças de hábitos com os quais conviveu durante toda sua história. Uma dessas orientações, por exemplo, refere-se aos cuidados com a higiene alimentar, para que se reduzam os riscos de infecções. Essas mudanças muitas vezes necessárias merecem atenção, pois em alguns casos podem, por excesso de zelo, se tornar obsessão.
Mudar hábitos não é procedimento fácil, mas muitos pacientes se esforçam sobremaneira para obter sucesso nessa empreitada, convictos de que com o novo comportamento poderão contribuir para uma recuperação mais rápida e satisfatória. Alguns, entretanto, correm o risco de chegar ao exagero e ultrapassam as conveniências almejadas pelo novo hábito, chegando a desenvolver pequenas manias. Se é preciso lavar bem as folhas de alface, eles podem se ver, de repente, gastando “horas” com uma folhinha da verdura.
Como saber se o que se tem é um hábito ou se já se tornou uma mania? Quem ensina a diferença é a psicóloga Cristiane Ferraz, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Segundo ela, todo hábito tem uma função e a mania é o impulso de fazer alguma coisa não funcional e que serve apenas para dar alívio emocional e psíquico. Acordar e escovar os dentes, por exemplo, é um hábito, mas acordar e escovar os dentes três vezes seguidas já é mania.
Cristiane esclarece que está falando das pequenas manias, não da mania no contexto psiquiátrico, que subentende a exacerbação do humor e é chamada de transtorno obsessivo compulsivo. As pequenas manias, que não têm praticidade, não costumam causar inconvenientes maiores; elas são parte de um processo doentio quando começam a atrapalhar a rotina da pessoa. Isso ocorre, por exemplo, quando alguém não consegue chegar ao trabalho porque tem de verificar dezenas de vezes se o gás está fechado antes de sair.
A psicóloga informa que é alguns pacientes com câncer podem exagerar nos novos hábitos e desenvolver pequenas manias. “No caso do paciente, a situação é um pouco diferente da de outras pessoas, porque ele é instado a tomar uma série de cuidados e pode se preocupar de forma exacerbada”, explica Cristiane. Ela lembra, porém, que esse processo não evolui necessariamente para um quadro de doença psíquica. O que é preciso é estar atento para perceber se as pequenas manias recém-adquiridas não estão interferindo na rotina.
“O paciente percebe quando seus novos hábitos estão-se tornando pequenas manias e muitas vezes ele encontra justificativas para isso”, relata a psicóloga.
Segundo ela, a questão alimentar é muito afeita a propiciar o surgimento de hábitos exacerbados e adverte que é importante verificar se o exagero não está levando a pessoa a evitar o consumo de uma série de alimentos pelo receio de contaminação. O ideal é que o paciente conte também com a ajuda de uma família atenta, que possa alertá-lo sobre o aparecimento de atitudes exageradas.
(*) CRP-SP 6/52301-9
Publicado em 06/01/2009