Entrevista com o psiquiatra Vicente de Carvalho, da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia
Buscar o equilíbrio após o diagnóstico do câncer pode ser um processo que tenha como primeiro passo o conhecimento de seu perfil psicológico e a busca de apoio para lidar com a vida como um todo, incluindo o tratamento de doenças. Segundo o psiquiatra Vicente de Carvalho, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia, há estudos que classificaram os perfis psicológicos mais comuns de pacientes com câncer e que determinam a forma de lidar com a doença. Ressalvando que toda classificação é genérica, Carvalho explica que podem ser consideradas quatro categorias de pacientes.
Na primeira, estão aqueles que se caracterizam pelo espírito de luta, que tendem a buscar informações sobre a doença e seus tratamentos e a ter comportamento participativo em todas as etapas de sua recuperação. Essas pessoas costumam evoluir de forma mais positiva na luta contra o câncer.
A segunda categoria engloba pessoas que acreditam que a cura depende exclusivamente de terceiros, sejam eles os médicos e outros profissionais de saúde ou Deus. Embora o comportamento seja de obediência às determinações da equipe de saúde, sua característica é de passividade.
No terceiro grupo estão os pacientes que usam a negação da gravidade da doença. Com essa postura, conseguem atravessar a dificuldade com menor grau de estresse, mas a conseqüência é que podem não perceber a necessidade de seguir o tratamento como recomendado.
Finalmente, há um grupo de pessoas que se desesperam diante do diagnóstico e a tendência, nesse caso, é de uma evolução pior do que a esperada.
Segundo o psiquiatra, o comportamento diante da doença é a continuidade do que a pessoa apresentou durante todo seu histórico de vida, ou seja, a pessoa não muda, espontaneamente, sua forma de encarar e lutar ou não contra as dificuldades, mesmo diante de um quadro grave como o de câncer. Mas é sempre possível - e especialmente recomendado às pessoas que têm postura de negação ou de desespero - buscar auxílio para compreender a adversidade e lutar melhor contra ela.
“É preciso abrir espaço para a expressão das emoções, num processo que vai além do simples desabafo”, ensina Carvalho, acrescentando que esse processo, que necessita de auxílio de um profissional, significa identificar as emoções, poder nomeá-las e, então, transformá-las em seu próprio benefício.
O médico defende também que a equipe de saúde deve dirigir sua atenção ao paciente e também à família, que acabará, em diversos momentos do tratamento, sendo o cuidador do doente. “Ao identificar a forma de o paciente encarar sua doença, a família pode ter papel importante no auxílio à busca de orientação terapêutica adequada, que reverta comportamentos que não contribuem para a boa adesão ao tratamento e a bons resultados”, finaliza o especialista.
Publicado em 04/05/2007