Entrevista com a fisioterapeuta Iara Rodrigues da Silva, da Clinionco
Fazer musculação é uma atividade que pode ser praticada pelo paciente com câncer mesmo durante seu tratamento, respeitadas as limitações que cada momento impõe. A opinião é da fisioterapeuta Iara Rodrigues da Silva, da Clinionco, clínica de Porto Alegre especializada no atendimento a pacientes com câncer.
“A musculação não é contra-indicada, mas tem algumas restrições e deve ser orientada pelo fisioterapeuta, em contato com o professor de educação física do paciente”, adverte Iara.
Ela explica que quando se faz esvaziamento de linfonodos axilares em paciente com câncer de mama, por exemplo, as restrições são relativas ao peso que o braço pode levantar. Isso porque quando a pessoa carrega ou levanta peso com o braço que sofreu o esvaziamento, os vasos linfáticos são comprimidos pelos músculos e seus diâmetros diminuem. Como os linfonodos foram retirados, os vasos não têm como fazer o líquido linfático subir e, por serem permeáveis, deixam que esses líquidos extravazem, causando inchaço na região.
Para evitar que isso aconteça, Iara recomenda o uso de pesos muito leves e que se evitem os aparelhos de força. Se a reconstrução da mama utilizou musculatura do abdômen, essa região também não poderá ser exigida. Os exercícios de musculação são, em geral, liberados sem restrições para trabalhos nos membros inferiores, no glúteo e em algumas regiões do tronco.
Segundo a fisioterapeuta, a musculação ou outra atividade física qualquer não tem como reverter a capacidade de levantamento de peso da região que sofreu a cirurgia, mas o exercício físico é imprescindível para a recuperação do movimento e de sua amplitude. “Pacientes que não são orientados com exercícios físicos adequados durante e após seu tratamento podem apresentar mais dificuldade em sua recuperação e muitas vezes apresentam, também, seqüelas mais graves que não podem ser revertidas depois de alguns anos”, adverte Iara, acrescentando que a atividade aumenta a nutrição de todos os tecidos do corpo e melhora a circulação de todos os líquidos do braço afetado, evitando alterações na pele que podem levar a complicações como a erisipela, que é uma infecção por bactérias.
No caso do paciente com câncer colorretal, Iara informa que as restrições para a musculação atingem outras regiões e dependem do tipo de incisão realizada, se foi colocada tela para o fechamento do local ou se houve retirada de linfonodos. Essas restrições poderão ser de não trabalhar determinadas regiões, de limitar o peso utilizado ou o número de repetições de cada movimento. Por isso, cada caso tem de ser previamente discutido com o médico e o fisioterapeuta.
A fisioterapeuta vê com bons olhos a disposição do paciente de realizar uma atividade física que leve a um ganho muscular. Durante o tratamento, incluindo o de quimioterapia, o paciente tende a perder massa muscular porque fica inativo nesse período em conseqüência da sensação de fadiga e por causa da falta de apetite que pode experimentar. Mas ela explica que o importante é realizar qualquer tipo de atividade, que podem ser caminhadas regulares, ginástica localizada ou outro tipo de exercício físico, desde que previamente orientados pela equipe multidisciplinar.
Publicado em 30/08/2007