Entrevista com a educadora somática Marisa Lambert, da Unicamp

 

Conhecer e aprimorar o funcionamento do corpo, por meio de exercícios de sensibilização e do movimento criativo, são alguns dos resultados obtidos com a educação somática. Esse campo de estudos aborda várias técnicas de trabalho para levar ao autoconhecimento do organismo humano e de seus movimentos e, com isso, alcançar melhor equilíbrio entre mente, corpo e sentimentos, potencializando a expressão, o bem-estar e a comunicabilidade.

 

A educação somática se dá por meio de métodos de investigação que tentam focar o reconhecimento dos processos internos e estimular a consciência das ações do corpo, suas intenções e emoções, explica a educadora somática Marisa Lambert, professora do Departamento de Artes Corporais do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo Marisa, entre vários procedimentos, as técnicas somáticas se utilizam do movimento expressivo e consideram que a vivência investigativa pelo movimento, diferente da reprodução de passos codificados de dança, gera possibilidades novas, mais singulares e criativas, de comunicação e relacionamento consigo mesmo, com o outro e com o meio. Além disso, um foco mais apurado na maneira de fazer o movimento, por meio de um trabalho de reeducação neuro-motora, é mais importante para o bem-estar do corpo que a execução de movimentos estéticos de dança, uma vez que o conhecimento do processo do movimento possibilita a mobilização de padrões rígidos, a liberação de tensões e a aquisição de maior fluência e harmonia na gestualidade corporal.

 

"O trabalho de educação somática inclui técnicas da cinesiologia, biomecânica, consciência corporal e exploração do movimento, entre outras", afirma Marisa, acrescentando que o objetivo é alcançar a visualização do corpo a partir do ponto de vista do próprio sujeito, para que a pessoa se perceba e se compreenda a partir de seu movimento, ritmo, respiração, postura.

 

Segundo a especialista, a intenção não é traçar um diagnóstico e passá-lo para o aluno ou paciente, com uma receita de movimentos “corretos”, mas, sim, permitir que ele tome consciência de seu eu interno a partir da tradução dada pelo movimento. "O movimento está ligado à personalidade", explica Marisa.

 

A dança praticada com o auxílio de um educador somático permite, por exemplo, que em processos de doença que levam a limitações físicas a pessoa encontre recursos para o equilíbrio tônico e para o suporte melhor do corpo, explorando regiões do organismo e movimentos que compensem suas eventuais deficiências. Diferentemente da fisioterapia tradicional que, em geral, trabalha com partes isoladas do organismo que estejam sob algum processo de desajuste, a educação somática lida com o corpo por inteiro, por considerar que cada parte tem seu movimento dependente e relacionado a todo o resto.

 

Marisa relata que a dança como instrumento para a melhor saúde começou a se desenvolver na primeira década do século passado, solidificando-se nos anos 60 e 70. Nos últimos 10 anos, com a entrada da dança nas universidades brasileiras, essa manifestação antes puramente artística passou a merecer novas abordagens para levar a uma experiência mais rica e profunda dos vários níveis dos tecidos do corpo e de como torná-lo mais maleável.

 

"Com a investigação do movimento, podemos promover uma reeducação que aprimore o uso da estrutura do corpo, enquanto uma unidade psicofísica, construindo nele melhores apoios para que se expresse melhor, se machuque menos, tenha menos estresse e desgaste e propicie qualidade melhor de saúde", resume a professora.

Publicado em 12/12/2007

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