Entrevista com a médica fisiatra Isabel Chateaubriand Diniz de Salles (*), do Hospital Sírio Libanês
A fase que se segue após a realização de uma cirurgia de médio ou grande porte - incluindo aquelas para retirada de um tumor - implica, boa parte das vezes, na necessidade de um trabalho de reabilitação para a melhor recuperação da condição clínica do paciente. A recuperação do paciente já começa a ser trabalhada por uma equipe multiprofissional ainda que haja um período de coma pós-operatório - condição que se caracteriza pela diminuição ou perda da consciência (estado não responsivo, em que o paciente não está ciente de si nem do meio que o cerca).
A médica fisiatra Isabel Chateaubriand Diniz de Salles, do Hospital Sírio Libanês, explica que o estado de coma não é caracterizado apenas pelos momentos de inconsciência de um doente grave antecedendo o óbito. O coma pode ser reversível e durar horas ou dias ou pode ainda ser irreversível. É classificado conforme o nível de consciência (coma superficial ou profundo).
Por não estar consciente, o paciente em coma requer uma série de cuidados específicos para manter-se vivo (caracterizados como suporte avançado de vida: ventilação assistida, sedação, uso de sondas e cateteres, medicações específicas) e outros cuidados de reabilitação que promovam a prevenção de complicações decorrentes da ventilação mecânica (respiração por aparelhos) e do imobilismo. Tal trabalho é realizado por uma equipe multidisciplinar composta por enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e até mesmo psicólogos para oferecerem suporte emocional à família.
Isabel ressalta a importância da reabilitação na fase do coma para que haja uma condição propícia e favorável à melhora clínica do paciente. Na fase em que o paciente encontra-se respirando com o auxílio de máquinas é especialmente necessária fisioterapia respiratória. Ainda nesta fase há que se realizar a movimentação passiva dos membros. Se o corpo não for mobilizado, há um grande risco de lesões de pele (úlceras de pressão) além de contraturas articulares, bem como trombose de membros inferiores.
A médica informa ainda que além dos cuidados avançados de vida, alguns hospitais adotam procedimentos de estimulação que ainda passam por discussão na comunidade acadêmica. Esses procedimentos têm como objetivo incitar os cinco sentidos, na tentativa de favorecer o despertar.
"A idéia é aguçar os sentidos do paciente comatoso através de estímulos sensoriais que normalmente ele não encontraria em ambientes como uma UTI", explica a médica.
Assim, a visão é estimulada promovendo-se alternância claro/escuro ou, quando o paciente já abre os olhos, com estímulos como a foto de um ente querido. Para trabalhar o tato, usa-se uma esponja, variando a sensação de macio ou rugoso, de quente e frio. O olfato pode ser estimulado colocando-se um perfume próximo e o paladar, com uma gota de café colocada na língua, por exemplo.
"Os estímulos não são trabalhados todos de uma vez, mas em sessões programadas, metódicas, de duração limitada, e só podem ser utilizados em pacientes estáveis", diz a especialista.
(*) CRM SP 87365
Publicado em 14/10/2008