Entrevista com a médica Cláudia Guertzenstein, do HC

Fazer uma atividade física ou corporal pode ser bom também para cuidadores de pacientes com câncer e acaba por refletir-se em ganho de qualidade de vida para o próprio paciente. A constatação é da ultra-sonografista e psicoterapeuta Cláudia Guertzenstein Angare Pereira, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Cláudia começou a realizar um trabalho voluntário para alívio de estresse com os funcionários da Unidade de Radiologia do HC. Em função dos resultados positivos obtidos, passou a direcionar as atividades a acompanhantes de pacientes com câncer da mesma unidade e, agora, já está partindo para montar um segundo grupo de acompanhantes.

A técnica utilizada pela médica prevê a realização de oito sessões de exercícios com uma hora e meia de duração. É realizada uma sessão por semana e os grupos são limitados a até 12 pessoas, guiados nas atividades pelas psicólogas Elisabeth Alves de Oliveira e Juliana Alves Cavalcante. As atividades incluem um período para verbalização - quando os participantes falam dos problemas e dificuldades que encontram ao cuidar do paciente - e momentos reservados para trabalhos corporais.

“O acompanhante de um doente crônico fica muito voltado para o outro, podendo esquecer-se de si mesmo e ao não se olhar pode ficar mais doente do que aquele de quem está cuidando”, explica Cláudia.

O objetivo da proposta é fazer com que o cuidador volte seu olhar para o próprio interior e readquira a capacidade de auto-conscientização, um trabalho que é facilitado pela atividade corporal que visa a que o participante tome consciência de cada parte de seu organismo de forma prazerosa e positiva. A cada sessão, por meio de técnicas corporais e de relaxamento, o participante trabalha uma parte de si, até que no final todas as partes são integradas para permitir a conscientização do corpo como um todo. A ansiedade é trabalhada principalmente com exercícios de respiração, de forma a reduzir o impacto do ritmo acelerado da vida moderna e que é exacerbado no caso de um cuidador de paciente com doença grave.

“Geralmente temos consciência de nosso braço, por exemplo, quando ele dói ou incomoda e a idéia é mostrar que temos de perceber o braço também como instrumento agradável, que possibilita momentos prazerosos como o do abraçar alguém”, raciocina a psicoterapeuta.

Ao final dos dois meses de trabalho, a equipe realiza um questionário para aferir os resultados da proposta em relação ao cuidador e ao paciente. Segundo ela, a repercussão tem sido positiva: os participantes relatam ter conseguido modificar a atenção que estavam dando a si mesmos e ter diminuído seu nível de ansiedade. Eles dizem, ainda, ter encontrado condições de cuidar melhor do membro de sua família que está doente.

Em geral, os participantes tendem a repetir em casa os exercícios de relaxamento ensinados, transmitindo-os também ao paciente, que muitas vezes passa a realizar ele próprio as mesmas atividades de relaxamento praticadas pelo cuidador.   

 

Publicado em 21/06/2007

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