Entrevista com a psicanalista Dorli Kamkhagi(*), do Hospital das Clínicas de São Paulo
Buscar um acompanhamento psicoterapêutico geralmente ajuda o paciente com câncer a superar as dificuldades impostas pelo tratamento e a fortalecer-se. Tomada a decisão de buscar apoio, o passo seguinte é escolher o tipo de terapia a fazer. Existem diversas técnicas, diversas escolas psicoterapêuticas e psicanalíticas e o importante é escolher uma com a qual haja maior identificação.
Uma dessas técnicas, já bastante conhecida, é a psicoterapia de grupo. Segundo a psicanalista Dorli Kamkhagi, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo e presidente da International Association of Group Therapy, a psicoterapia de grupo tem como uma de suas principais características a possibilidade de dar ao paciente a sensação de pertencimento, de estar com os outros, compartilhar angústias, olhar e ser olhado.
“Essa sensação de pertencer a um grupo, de fazer parte, já ajuda”, avalia Dorli. O paciente percebe que tem colegas com diferentes sofrimentos e maneiras diversas de se reorganizar. A forma de exprimir e os sentimentos também são variados, passando por emoções como a revolta, a raiva, a dor e o afeto.
O trabalho em grupo permite, ainda, reviver sensações familiares que são revisitadas na medida em que o outro emita sinais ou tenha comportamentos similares aos de pessoas da convivência do paciente. Essa possibilidade permite ao paciente se reconhecer, reavaliar e até transformar comportamentos, percepções e sensações.
A psicoterapeuta informa que os grupos que atende costumam ter de oito a dez integrantes e que em princípio a técnica pode ser indicada para todos, excetuando-se pessoas com psicoses graves. Em alguns casos de depressão severa, pode ser necessário, também, o uso de medicação.
O grupo adequado para o trabalho não deve ser fechado, lembra Dorli. Assim, alguns participantes desistem no meio do caminho e novos participantes podem passar a integrar o grupo. Ela também procura não manter muitos indivíduos com a mesma patologia, mas a preferência é que haja os mesmos focos de interesse. Por isso, ela não vê eficácia, por exemplo, em ter pacientes muito jovens mesclados com outros de meia idade, porque os interesses e valores desses indivíduos são muito diferentes e isso dificultaria a identificação entre eles.
(*) CRT-SP 15449