Entrevista com o psicólogo Ricardo Alves de Lima, doutorando da USP

Lidar com as emoções contraditórias e novas capazes de surgirem após um diagnóstico de câncer pode exigir, muitas vezes, o auxílio de um psicoterapeuta. É comum que lidar com essa nova realidade passe a ser uma tarefa difícil para todas as pessoas da casa e, nesse caso, a terapia pode ser aplicada a todo o grupo familiar.

“A busca por uma terapia pode vir do paciente ou de algum membro da família que identifique a necessidade dessa pessoa de receber assistência terapêutica”, explica o psicólogo Ricardo Alves de Lima, professor universitário e doutorando em Psicologia da Personalidade e do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Ele acrescenta que, nas primeiras avaliações, o terapeuta pode constatar que, além do próprio paciente, toda a família precisa submeter-se à psicoterapia para aprender a lidar com novas rotinas.

Na grande maioria das vezes, a terapia familiar é aconselhada em casos em que, por exemplo, os pais procuram o psicólogo porque identificam em um filho, geralmente adolescente, a necessidade de que ele seja submetido ao tratamento. Quando a avaliação inicial do profissional indica que, na verdade, todo o grupo familiar precisa desse apoio, muitas vezes a primeira reação da família é de negação. Segundo o psicólogo, em cerca de 90% dos casos a queixa inicial apresentada mostra-se, tão simplesmente, uma conseqüência de problemas de comunicação entre os familiares.

Há muitas formas de configuração de psicoterapia familiar. Dentro de sua experiência clínica, Lima explica que as sessões terapêuticas costumam durar entre uma hora e meia a duas horas e podem ser realizadas mais de uma vez por semana. O grupo convidado a participar inclui todos os membros da família e também pessoas com quem há convivência diária, como avós ou tios que morem na mesma casa ou empregados com histórico de longa e estreita convivência com a família. As sessões podem ser conduzidas por até dois terapeutas e consistem de comunicação verbal, dramatizações e atividades lúdicas, quando há crianças. Além disso, a família recebe tarefas para executar em casa, com vista à mudança de padrões de comportamento relacionados à queixa trazida pela família.

Ele aponta ainda que quando surge um caso de doença grave ou crônica na família, alguns membros do grupo podem apresentar dificuldade de aceitação da situação ou de novos papéis que tenham de exercer, o que pode afetar a eficácia do tratamento da pessoa enferma. Ele alerta que a aceitação pelo próprio paciente de sua condição e a sensação de estar sendo acolhido pela família aumentam suas chances de aderir ao tratamento médico específico para sua doença.

“Muitas vezes a família já tem padrões ‘ruidosos’ de comunicação, dificultando o entendimento entre seus membros e o surgimento de uma doença faz com que esses ‘ruídos’ aumentem”, esclarece o especialista.

Nos casos que atende, o especialista diz que é comum que a mãe exerça o papel de definir quem faz o quê na família. Quando ela é a pessoa afetada por uma doença grave, os efeitos para o restante da família podem ser agravados na medida em que sua condição prejudique o desempenho dessa função. Isso também acontece quando a doença atinge o principal provedor da casa ou aquele membro que carrega muitas das expectativas de sucesso, por parte do grupo familiar, por exemplo, um filho mais velho ou mais capaz intelectualmente. Nesses casos, o auxílio profissional se faz ainda mais apropriado para a readequação de papéis, visando o bem-estar do grupo familiar.

 

Publicado em 21/06/2007

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