Entrevista com a psicóloga Christina Haas Tarabay, do Hospital A.C.Camargo
Alterações no comportamento do paciente com câncer são
bastante freqüentes e acontecem desde o impacto do diagnóstico, podendo
atingir, num contexto amplo todos os seus comportamentos e manifestações,
sejam eles de ordem afetiva, emocional ou sexual. “A perspectiva de vida é modificada
no momento do diagnóstico, que sempre chega junto com o medo da morte”,
explica a psicóloga Christina Haas Tarabay, do Departamento de Psicologia
e Psiquiatria do Hospital A.C.Camargo.
Também é freqüente que, em pacientes com câncer colorretal
que passam a usar a bolsa de colostomia, os momentos de contato íntimo
com o parceiro apresentem dificuldade.
“A auto-estima é prejudicada, a imagem corporal, modificada, e a
sexualidade fica abalada”, resume a especialista.
Segundo ela, o paciente passa por uma fase de total desorganização
física e psíquica e requer atendimento terapêutico individual
seguido de atendimento ao casal. O suporte da família e especialmente
do parceiro proporciona segurança e facilita sua reintegração à vida
social, amenizando o medo de ser visto apenas como doente.
Para a psicóloga, o primeiro passo é avaliar como era o relacionamento
do casal antes do diagnóstico do câncer. Bons relacionamentos prévios
tornam a fase de adaptação e a superação das modificações
impostas pela doença um caminho menos árduo. Já nos relacionamentos
que vinham apresentando problemas, esses tendem a tornar-se mais transparentes
nessa fase de dificuldade.
Christina incentiva o casal a falar sobre o assunto, o que é sempre muito
difícil para ambos. É comum que os dois acabem adotando comportamentos
que acreditam ser o esperado pelo outro e, em vez de satisfação
e conforto, geram frustração no parceiro. “Às vezes
o homem não procura sexualmente sua mulher por achar que esse comportamento
seria egoísta no momento em que ela atravessa um tratamento difícil,
e a mulher se sente rejeitada e passa a se sentir menos desejada porque acha
que o marido a evita”, exemplifica a psicóloga.
O terapeuta, acredita a especialista, deve atuar como facilitador do diálogo
e é fundamental que ele ouça as queixas do casal para procurar
fortalecer o paciente e seu parceiro, sem, entretanto, destruir seus mecanismos
de defesa.
“Às vezes após a cirurgia, o paciente não quer nem
mesmo olhar para o estoma, mas temos de incentivar que ele passe a cuidar de
si próprio”, explica Christina. E resume: “Ele tem de buscar
ter prazer no ato de se cuidar, para depois cuidar de seu prazer”.
Publicado em 14/05/2008