Somatização é tema respeitado por profissionais da saúde
Entrevista com o psico-oncologista Francisco Lentini, do IGM
Somatização, palavra que vem do grego somato, que significa corpo, é um processo pelo qual a pessoa transfere para o organismo a carga emocional decorrente de algum problema que está vivendo. A conseqüência, muitas vezes, é o surgimento de uma doença ou o agravamento de uma já existente.
“A cabeça boa transmite bem-estar ao corpo”, explica o psico-oncologista Francisco Lentini, do Instituto de Ginecologia e Mastologia (IGM), do Hospital Beneficência Portuguesa, de São Paulo. Muitas doenças, afirma, começam com a perda do emprego ou com o fim de um casamento. Quando a pessoa se emociona e chora ou extravasa de alguma forma o seu sentimento, a probabilidade de que essa emoção provoque doença física é menor. Quando não consegue colocar para fora o sentimento, a chance de que a dor se transforme em fobias, gastrite, artrite ou outros tantos males aumenta.
A somatização interfere no sistema imunológico e abre as portas do organismo para uma série de doenças, explica Lentini. Em geral, isso não acontece imediatamente, mas é resposta a algum evento ocorrido cerca de oito a dez anos antes, afirma o especialista.
Lentini alerta, entretanto, que a doença – incluindo o câncer – é resultado de diversos fatores e, por isso, mesmo quem não consegue extravasar emoções não está sujeito necessariamente a uma interferência em sua saúde. Para diminuir essa probabilidade, o segredo é cuidar de outros aspectos, como a alimentação e o sedentarismo. “Fazer uma alimentação saudável e praticar atividades físicas com regularidade são meios eficazes de prevenir doenças”, afirma o psicólogo.
A somatização pode também interferir no bom resultado de um tratamento, afirma Lentini. Como o perfil da pessoa que não consegue liberar suas emoções é o de alguém que não sabe lidar com as contrariedades, essa forma de encarar os problemas se estende também a quem recebe um tratamento, dificultando sua adesão às recomendações médicas.
O cirurgião plástico Alexandre Katalinic, do Hospital do Câncer de São Paulo, lembra que não há estudos conhecidos que comprovem relação direta entre somatização e o surgimento de câncer, mas lembra que como ocorre com diversas doenças, o câncer é causado por uma multiplicidade de fatores, inclusive os de causa psicológica e emocional.
Também o médico Paulo Kassab, secretário do Congresso Mundial de Câncer Gástrico que acontecerá neste ano em São Paulo, vê relação entre o emocional e o físico. Responsável por aulas de psicossomática e câncer na Faculdade de Medicina de Santo Amaro, onde é professor titular de gastrocirurgia, ele explica que o estresse agudo constitui uma agressão ao organismo e provoca alterações que podem ser comprovadas por indícios químicos. Aliado a outros fatores, o estresse pode, portanto, acabar se transformando em uma série de doenças, começando com uma simples gripe.
Publicado em 05/04/2007