Entrevista com a psicóloga Elisa Maria Perina e a psiquiatra Ana Maria Osório Ferreira
Portadores de doenças crônicas, como o diabetes, ou de doenças graves, como o câncer, podem estar mais sujeitos a desenvolver depressão – estado mental que se caracteriza principalmente por tristeza constante, falta de energia e sensação de impotência diante de problemas, entre outros sintomas. A boa notícia é que esse estado pode ser transitório e seu tratamento - usualmente feito com terapia e eventualmente com medicamentos - também pode ter curta duração.
Segundo a psicóloga Elisa Maria Perina, presidente da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia e coordenadora de psico-oncologia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), não existe um perfil definido que determine quem pode ter depressão diante de uma doença e o que influi é a forma como a pessoa costuma reagir diante de adversidades. Quem enfrenta problemas e busca soluções está menos sujeito à depressão.
Elisa acrescenta que a depressão pode atingir o paciente de câncer tanto no momento do diagnóstico como durante o tratamento contra a doença. Em geral, o sintoma é uma grande sensação de tristeza em função do sentimento de perda da saúde e do medo diante da possibilidade da morte. “A pessoa chora, isola-se socialmente, pode ter perda de apetite e alterações no sono”, diz a psicóloga.
Como alguns desses sintomas ocorrem também em função do próprio tratamento, Elisa diz que somente o acompanhamento permanente do paciente pode determinar se há um quadro de depressão ou não. Depois de diagnosticada a depressão, o próximo passo é determinar o grau do problema e definir se haverá necessidade de medicamentos específicos.
“Mesmo quando o medicamento é indicado, sempre recomendamos que seja feita uma terapia, que pode auxiliar a pessoa a entender seu novo momento de vida e a lidar melhor com essa e outras adversidades futuras”, informa a profissional.
Quando precisa de medicamentos, o paciente é encaminhado a um psiquiatra, que deve atuar em conjunto com o oncologista responsável pelo tratamento, informa a psiquiatra Ana Maria Osório Ferreira, vice-diretora clínica do Centro Infantil Boldrini, de Campinas, referência no tratamento do câncer em crianças e adolescentes.
Ela explica que medicamentos contra a depressão são indicados quando o sofrimento do paciente ocorre diante do diagnóstico, durante o tratamento ou antecipando momentos como a cirurgia. O objetivo é diminuir sua angústia e possibilitar melhor adesão ao tratamento contra o câncer.
O tratamento medicamentoso contra a depressão geralmente tem duração mais curta no paciente com câncer, uma vez que os sintomas costumam diminuir e até desaparecer em função de sua recuperação. Enquanto o paciente depressivo pode utilizar medicamentos por pelo menos um ano, o paciente com câncer pode ter necessidade deles por cerca de seis meses.
A escolha da droga adequada deve ser definida levando em conta as substâncias utilizadas na quimioterapia, enfatiza Ana Maria. Alguns deles podem interferir nos compostos quimioterápicos ou resultar na ocorrência de efeitos adversos e, por isso, é indispensável o diálogo entre psiquiatra e oncologista.
Publicado em 19/07/2007