Entrevista com a psicóloga Ana Carolina de Oliveira Costa, do HC (FMUSP)

Ficar sem reação, sem saber o que dizer diante de uma situação difícil enfrentada pelo outro é uma experiência pela qual todo mundo passa alguma vez. Não é raro que, na tentativa de diminuir o sofrimento de alguém, nossa busca por consolar acabe se transformando em de mais sofrimento para o outro. Isso pode acontecer se tentamos maquiar a realidade ou lançamos mão de chavões que pretendem minimizar a dor e podem ser interpretados como se déssemos pouca importância ao problema que a pessoa está vivenciando. Com isso, sem perceber, estamos também impedindo que o outro tenha espaço para expressão e compartilhamento de sentimentos extremamente dolorosos, ajudando a aumentar sua angústia de solidão.

Frases como “Isso vai passar”, para quem está sentindo dor ou “A vida continua” para os que encerraram uma etapa de tratamento não são, em geral, a melhor maneira de lidar com a dificuldade de um paciente que enfrenta doenças graves. Segundo a psicóloga Ana Carolina de Oliveira Costa, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, o cuidador ou as pessoas próximas de um paciente com câncer precisam compreender que tentar minimizar o sofrimento é, em primeiro lugar, uma forma de eles próprios se defenderem e que a negação à gravidade da doença mostra que é deles mesmos, também, a dificuldade de entrar em contato com os próprios sentimentos em relação à proximidade da morte e a conseqüente angústia que envolve essa temática.

“O paciente sabe que está passando por um momento grave e por isso minimizar a situação não só não ajuda a diminuir sua dor, como também acaba por criar mais um peso para ele, que se vê obrigado a manter a imagem de que está bem para ajustar-se às palavras e expectativas de quem o está consolando”, diz a especialista.

Ana Carolina lembra que para bem cuidar é necessário fortalecer-se primeiro. “Os cuidadores sempre são negligenciados, porque o foco está todo voltado para o doente, e não se percebe o quanto é difícil estar nesse papel e com que dimensão sua vida muda em função da doença do outro”, adverte a psicóloga.

Para obter esse fortalecimento, o cuidador precisa reservar tempo para si mesmo e dedicar-se a atividades que lhe dão prazer. Também deve buscar contato com pessoas de fora, profissionais ou amigos, com quem possa trocar idéias e extravasar suas emoções, sejam elas de raiva, tristeza, dor ou culpa. Reservando tempo para si mesmo é mais fácil manter o equilíbrio e a saúde mental e física.

Compartilhar do momento do paciente pode se tornar uma tarefa menos árdua se o cuidador procurar, também, desenvolver com o parente ou amigo doente alguma atividade fora da rotina do tratamento que sirva para resgatar a parte saudável da vida. Essas atividades podem ser assistir a um filme, jogar cartas ou qualquer outra coisa que se adeque às condições físicas de quem está enfermo.

“Brincar e compartilhar são meios de aquecer a conversa, de permitir que se crie o momento para que ambos possam falar com mais naturalidade sobre o que estão vivendo, sem que se caia em extremos como o de minimizar ou de tornar-se agressivo”, aconselha Ana Carolina.

Publicado em 04/10/2007

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