Entrevista com a psicóloga Cristiane Ferraz, do Hospital Albert Einstein

Viagens durante o tratamento do câncer podem ser realizadas e resultar num período importante de relaxamento e de reunião de forças para o enfrentamento da rotina muitas vezes estressante de combate à doença. Entretanto, antes de comprar passagens e arrumar as malas, é aconselhável ter primeiro uma conversa com o médico para saber se o projeto não vai prejudicar o tratamento. “Viagens podem favorecer relaxamento e alívio de stress, mas para que isso ocorra as recomendações médicas devem ser atendidas, não colocando o tratamento em risco”, afirma a psicóloga Cristiane Ferraz, do setor de oncologia do Hospital Albert Einstein, de São Paulo.

O destino e a distância da viagem também devem estar de acordo com o momento do tratamento. A possível necessidade do paciente de estar mais próximo do médico responsável ou do hospital onde está sendo atendido, caso ocorra algum imprevisto, deve ser considerada, adverte a psicóloga. Quanto ao tipo de local a ser escolhido, são mais indicados lugares calmos, sem muita agitação e multidões, que podem submeter o paciente ao risco de gripes e resfriados.

“Se houver um grande intervalo entre as etapas do tratamento e o médico estiver de acordo, as viagens podem e devem ser realizadas, desde que o paciente esteja bem informado sobre possíveis restrições e cuidados importantes”, aconselha Cristiane.

Ela lembra que viagens implicam em mudanças temporárias, com outros ambientes para dormir e comer, fatores que, para algumas pessoas, podem ser fonte de ansiedade e preocupação. Problemas desse tipo podem ser evitados se o paciente se organizar previamente e tiver um “plano B" na manga, como indicação de serviços de saúde ou médicos aos quais possa recorrer numa emergência. Planejar programas mais curtos, com possibilidade de repouso entre as atividades e maior controle sobre a rotina também são medidas que favorecem o aproveitamento da viagem. “Se existe uma dieta específica, ou muitas pessoas e/ou lugares para serem visitados, tudo deve ser planejado com antecedência e flexibilidade, respeitando-se o limite do paciente”, diz a psicóloga.

Para a profissional, se a decisão de viajar for um meio para a recuperação emocional do paciente, o recomendável é que o programa seja feito com uma companhia com a qual ele se sinta à vontade, que tenha maleabilidade para acompanhar seu ritmo e que lhe transmita segurança para o caso de um suporte mais específico que se mostre necessário.

Para o paciente que está fragilizado emocionalmente, Cristiane lembra que há outras formas, além da viagem, que podem lhe trazer conforto e relaxamento. Fazer passeios próximos e de curta duração, como ir a uma praia, a parques ou museus. O que importa, explica, é que a família e os amigos estejam atentos para buscar formas de relaxamento e prazer para o paciente.

“Existem muitas possibilidades, mas elas só têm valor se forem desejadas pelo paciente. Por ser um momento bastante delicado, nem sempre o que é confortável para um paciente é para outro, e muitas vezes dependendo do período de tratamento, o que era gostoso de fazer em uma fase, não é mais interessante e prazeroso em outra. É fundamental manter a escuta para essas necessidades de lazer do paciente e auxiliá-lo a encontrar formas de se divertir, relaxar e sentir-se mais fortalecido para lidar com o que está acontecendo no momento”, conclui a psicóloga.

Publicado em 17/05/2008

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